Terça-feira, 17 de Março de 2009

Interrupção

Por motivos diversos, ocupações de trabalho, financeiras, doença familiar, terei de interromper as postagens temporariamente. Aviso, para não ser injusto com quem vem fazer a visita e nada encontra escrito. Criar exige liberdade. Quando ela tiver retornado eu recomeço...
A criativade morre sempre que não tem condições plenas de se fazer. Agradeço aos anônimos(?) por sua contribuição, aos que se manifestaram, as que se encantaram e foram gentis e até amorosos. Perdão aos que gostavam verdadeiramente, com sinceridade e emoção ao ler, por lhes tirar, subitamente, essa oportunidade. A vida mortal sempre se encarrega de destruir as fantasias e tirar o prazer até mesmo de fazer espaços como esses.
Espero que até aqui tenha valido a pena e tenha recompensado vocês. Aos que não gostaram de algo, ou não acharam bom os textos, minhas desculpas sinceras...
Com todo afeto e carinho....por todos

Sábado, 7 de Março de 2009

Texto 57 - Olhares...

Eu me cultivo debulhando miudezas. Debulho palavras como um lavrador que, na sua lavoura de seca, debulha as gotas de uma chuva como se fosse inundação, como quem debulha, no arreio da manhã, as vagens de feijão, para o cio de sua fome.

Sou de mínimos recebimentos. Carrego o escasso na memória. Fiz-me em dar. O que me assoreia é não retribuir. Teço margens, agüento o tranco, passo dos limites, e, às vezes, me faço de desentendido, só pelo mistério de reinventar a pessoa amada. Enxergo, no que me é dado, por menor e sem adornos que seja, o ofertório dos deuses, por minhas pequenezas de homem e humano.


Esmiúço o joio, cato, viro rendeira, para tecer do menor grão de trigo, o meu pão. Depuro as impurezas na bateia, para reter as notas de violino. Guardo as dores, as ofensas de boca e ato, amorteço-as, como quem cede seu corpo para as rosas necessárias.

O que me dão, de pouco, é farto, e que me tiram, de farto, é nada. Afinal, ela apareceu de repente, inesperada como uma miragem, mar e vela, linda e improvável, usando um vestidinho vermelho...

Quarta-feira, 4 de Março de 2009

Texto 56- A falta que a mulher faz

Monica e Magali de Rosa e Azul de Renoir...

Por acaso sua mulher viaja para congressos, cursos, ou você, como um terço de nós homens, já é separado? Então sabe do que vou falar. Você já se viu na prateleira do supermercado, frente a uma dúzia de frascos coloridos tentando diferenciar desinfetante, detergente e alvejante? Especialmente se sua mãe lavava tudo com sabão em barra? E da marca Campeiro, o melhor?


Ou diante do dilema socrático de tentar adivinhar como ficará o cheiro de sua casa se preferir o eucalipto a floral? Ou qual deles estraga menos a pele da mão, conforme recomendou sua diarista? Você sabe qual marca de sabão em pó tem o aditivo mais aditivo, que lava mais branco, conferindo à roupa de seus filhos um brilho de fazer inveja a qualquer outra mãe? Pois tenha certeza que é mais fácil tentar decifrar o enigma da Esfinge do que resolver essas charadas. Ou então fazer como eu que sou salvo pelas orientações de Ana Luísa, minha filha de sete anos.: - “pega o do ursinho pai!”
Aliás, ela gosta tanto de falar que não pude deixar de rir quando, ao fazermos feira, ontem, ela me disse que sua palavra predileta é etecetera!. Só podia.

Mas, a menos que você tenha sido escoteiro ou aprendido durante seus anos como marinheiro, a dar nós, está ciente das dificuldades de fazer um coque no cabelo comprido de sua filha, para que ela vá à aula de ballet? Você conhece exatamente a diferença entre scarpin e uma alegoria para a festa do bumba-meu-boi? Ou por que ela prefere tiara a pompom (seja lá o que isso for) e outros enfeites mais, se antes era tudo maria-chiquinha? E que piranha não é exatamente aquilo que você estava acostumado, mas algo para prender o cabelo?

Você já passou a vergonha de chegar em casa com dez frascos de amaciante de roupa, que comprou na promoção, achando que fez um grande negócio, e a cozinheira te olhou com ar de desdém duvidando seriamente de sua capacidade mental, ao lhe explicar, tão calmamente quanto possível, que ela era cozinheira, logo, o amaciante era para carne? Ora, diabos, como ninguém lhe explicou que havia um produto especifico só para amaciar carne se no seu reino de homem todo mundo só fala das carnes durinhas???

Tal como um general diante das opções de uma batalha, você já teve que escolher se o que sobrou do almoço deve ser guardado no forno, no freezer, na geladeira, antes ou depois de esfriar, ou se é melhor jogar tudo fora e dizer que uns amigos apareceram de repente e comeram tudo, sem arriscar outra sessão de avaliação do seu QI? E por que raios tem tanta opção na máquina de lavar e não só dois indicadores: lavando e lavado?

Viver, como dizia Guimarães Rosa, é muito perigoso. O lar é um terreno movediço, onde a cada passo afundamos em um emaranhado de novos significados e, no qual, se fala um estranho dialeto de usos e costumes, só acessível aos iniciados.

Sei que existem inúmeras outras coisas que fazem das mulheres nossa certidão irreversível, e sei que, uma ou outra feminista, com menos senso de humor, pode julgar que as estou diminuindo, mas a verdade é que basta tentarmos sobreviver sozinhos, em casa, para que percebamos a falta que a mulher faz...
PS: aos amigos: no próximo dia 13 estarei fazendo minha qualificação do doutorado, então, se não postar ou não retribuir as visitas foi por impossibilidade. Volto depois...vivo...espero...

Quinta-feira, 26 de Fevereiro de 2009

Texto 55 - As flores do meu coração

Flores - Di Cavalcanti Eu sei, ainda não é outono e as folhas que enfeitaram os amores na primavera, agora são flores em outros corações, mas nos meus olhos já se anuncia a escassez da última estação. Trago, entretanto, flores tardias em meu peito. Nem todas, miram a luz do sol. Não constam dos catálogos dos biólogos, nem dos balcões das floristas. Cultivo espécimes únicos.



Algumas apenas mimetizam uma lembrança que envelhece à distância. Uma saudade. Outras apenas são uma tarde qualquer sob a chuva. E, algumas, são lírios de desejos carmins ou avencas esperançosas. Há, as delicadas, receosas, antigas flores machucadas, como soluços sem consolo, que não mais se abrem, como as esperanças dos amores inocentes. Há, entristecidas, as que morrem diariamente, por escassez de cuidados e abandonos. Mas, teimosamente, apesar de crer que o outono pode não ser um jardim às avessas, guardo flores no coração.


Escrevo velhas cartas de amor para ninguém, leio livros na varanda e a falta dela na primeira luz da manhã que atravessa minha consciência. Sonho ler todos os poemas e jogar gude tão bem quanto moleque. Bebo muito vinho e ilusões, diariamente, e isto me faz acreditar que não estou morto, mas, se duvidarem, exijo que beijem minha boca por longos dez minutos e, se eu reagir, me possuam enlouquecidamente como um milagre de sua própria existência, a regar as flores em meu coração.


Adoro restaurante, gosto de pratos enfeitados com canela e besteiras, incorretas, na rua, como taboca, caldo de cana e maniçoba no mercado. Danço mal e já perdi mulher por isso, mas engano no forró, que adoro, como um chamado que ecoa lá na memória. Nado pior ainda, tenho colesterol elevado, mas sei andar de bicicleta, viro lobisomem na lua cheia, te garanto, mesmo que você seja incrédulo, e cio, mas, apesar de tudo, tenho leiras de flores no meu coração.

Produzo muito. Acho que sou criativo. Contei só histórias que inventei para meus filhos dormirem, velhas lendas, de amores impossíveis, em que só eu acreditei. E sempre achei que a sala de casa era para jogar bola, fazer corrida de saco, pega-pega, giro maluco e outras invenções que povoam minha alma de menino, nunca vasos e móveis para as visitas. É lá que, apesar dos protestos e um ou outro acidente com arranjos, nos cansamos e ficamos deitados e sujos, no granito frio, abraçados às flores do meu coração.


Sou, essencialmente, emoção. E perdi o medo do choro. Sou péssimo em jogos, não gosto de matemática e falto de forma sistemática a ginástica. Uso óculos desde o canal de parto, sou alérgico a camarão, aviso desde já a quem me convida para jantar, pois já passei umas duas ocasiões devorando salada, sob a alegação de recomendação médica, urucubaca com mariscos, opção ecológica e coisas tais. Já passei dos quarenta e devo estar fora de moda, mas sei amar as palavras como ninguém e sonho flores no meu coração.


Amo as noites de lua, a volúpia dos seus feitiços, o pôr-do-sol que enfeita as moças, de graça, as coisas simples, o cheiro do rio lá na roça. Tenho períodos em que escolho roupas adequadas, outros não e dias que não calço meia por pura preguiça. Ainda creio que para sempre é possível e recomendo aos senhores que nunca deixem a mulher de sua vida lhe esperando para jantar e nunca durma, por maior que seja a zanga, sem perdão. Aprenda isso rápido, antes que seja tarde demais, pois temos todos, alambrados secretos nos jardins e o amor, por ser amor, não basta. Mas, ainda que eu esteja aprendendo a pertencer, tenho flores no meu coração.


Adoro conversar com velhas senhoras e nos apaixonamos reciprocamente. A última que amei assim foi Tia Regi, com sua ternura de fada madrinha, iluminada por candeeiros. Tenho facilidade com as crianças e aversão a chefes e poderosos, onde sempre se está a um passo da bajulação. Conto piadas razoavelmente, improviso e falo muito bem, mas sou ruim com dinheiro. Faço feira como uma boa dona de casa, mas detesto arrumar dispensa. Sei que, no outono, as folhas caem, secas, que os ossos doem feito poeira, mas tenho flores, que dizem te amo, eu meu coração.


Sei que só os amores ensandecidos são capazes de cruzar o longo outono da convivência, por isto aprendi a amar com os loucos. Sei que estou envelhecendo, embora saiba, esperançosamente, que há mulheres que colecionam antiguidades, mas tenho as flores mais novas, inaugurais, que nunca haviam florescido, apavorando meu coração.


Eu sei, eu sei. Não é outono. Hoje é domingo. É verão. As folhas ainda sombreiam todos os destinos. E, agora, eu apenas espero, que alguém cuide das flores do meu coração...

Terça-feira, 24 de Fevereiro de 2009

Texto 54- Aniversário:o tempo, o tempo, o tempo...

Hoje............................................................... Ontem...
Aos leitores, obrigado. Opinem. Não se ocultem. Sem voçês eu não me refaço. Aos que, de fora do país ( Da China a Viena, Portugal, etc, etc,), também nos visitam, deixem um recado, uma opinião, mandem um mail, enfim se manifestem. Da opinião de todos é que posso medir se tem validade ou não continuar fazedno o blog, tecendo em textos o imaginário de vocês, se mudo o rumo. E, se quiserem, sugiram até um tema. Sei lá. Quem sabe sai um texto. Só não vale o silêncio... Basta um olá...

Sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2009

Texto 53 - Ah se ela dissesse


A primeira vez que ela apareceu, flor do meu acaso, ficou determinado nas tábuas de lei, lá dos céus, o inicio do cisma entre meu passado de incertezas e o futuro improvável, embora ainda não soubéssemos que estávamos na chuva e ela iria nos molhar. Até o dia em que ela surgiu dançando o baile imaginário, numa saia de conteúdo improvável e sem nenhuma certeza estatística de que aquilo era de verdade e não uma ilusão de óptica, uma epifânia de quem não tragou e não duvida da fé.

Mas eu a vi na retina cansada destes olhos meus que, um dia, ainda muito distante, a terra há de comer, sem o sentido bíblico da coisa com a qual eu a devoraria, e senti o abalo nas minhas placas tectônicas, o sismo na minha abissal fossa sentimental. Desde então tudo que era ilegal, imoral ou que engorda, a metafísica, a oratória e o perfil do colesterol mudaram ao sabor dos seus encantos e do arco-íris de seu riso. Mas como tudo que me acontece além da linha do horizonte, não sai como rezam as lendas e o horóscopo chinês, ela deixou meu coração no bung-jump existencial, oscilando como um samurai bêbado, num haraquiri de fazer inveja a piloto japonês.

Ah, mas se ela soubesse que, desde aquela vez, em que veio ao meu mundo tal qual uma Eva, sem a parreira, e viu a maçã virar sobremesa, eu dividiria o universo em dois hemisférios, abaixo e acima do seu piercing no umbigo. Ah se ela dissesse que é louca por mim e que ficaria no meu corpo feito tatuagem pra me dar coragem de seguir viagem e outras canções. Ah se ela dissesse que é louca por mim e batesse a porta do seu casulo para nunca mais voltar e fizesse comigo uma casa no campo. Eu juntaria as mãos para o céu e agradeceria por ter alguém que eu gostaria que andasse comigo na rua, na chuva, na fazenda e na casinha de sapê, que a vida nada mais é do que esse velho cantar de ilusões.


Se ela soubesse que por ela eu aprenderia uma nova língua, decifraria os sinais de fumaça, comeria manga com leite e mudaria a ordem das constelações celestes para que seu riso passasse a orientar os navegantes solitários como eu. Se ela soubesse que pularia de para- quedas e contaria a história do mundo no seu ouvido feito uma Sherazade online e com segundas intenções, para garantir que funcionaria regularmente por ser sábado e outros dias da semana, por mais que mil, por todas as noites de minha vida, perdido no pôr-do-sol dos olhos dela que acontece todos os dias entre lugares tão distantes como a primavera e o verão, o pólo norte e sul, o equinócio e o solstício.


Por ela aprenderia a dançar, o nome das flores, cavalgaria o minuano, andaria sobre os telhados e por seu beijo removeria montanhas e iria a Maomé e a tornaria meu orixá regente. Só por ela, tão linda, tão linda, tão linda, que confunde meu sono e sonho, eu desviaria a rota dos cometas e a hora de Greenwich. Eu faria tudo diferente, sem meter os pés pelas mãos. Ah! Eu acordaria. Mas só se ela dissesse, se ela dissesse, que é louca por mim...

Segunda-feira, 16 de Fevereiro de 2009

Texto 52 - O jardim Avesso

O jardim de Giverny - Monet Namorados, enamorados, namorai, enamorai-vos, que ainda é tempo. Ainda que mudem os planetas e queimem as florestas, enamorai-vos. Que o tempo, como diz o poeta, é quando. E o coração não conhece, sabemos todos, outro remédio que não morrer de amores.


É preciso, mais que nunca, remar contra a maré, feito um insensato das convenções e regras. Que a maré, dizem os costumes, é contra o intenso. È rio sem força, talvegue de palmo, é sem estilo e sem destino. Que as relações são todas de balaio raso, de feitio sem enfeite, sem adereços, sem alegorias ou danças imaginárias.

Homens e mulheres olham-se apenas ao redor da cintura e adjacências como se vida tivesse currículo de posse construído na quantidade e não nos imponderáveis desatinos dos encontros improváveis.
Devemos namorar, não os namoros seriais, mortais na banalidade, frágeis na sustentação da vida e de suas inevitáveis dores, limitados por todos os pontos cardeais, tão mortais que sequer merecem um canto da memória. Tão comuns que apenas não passam de amores canibais a devorar a santidade do corpo feminino e a biografia dos homens.

Devemos amar com que ora, atendido pelos deuses, diante daquela mulher improvável, de tão linda. Tão incerta quanto a luz de uma estrela que se desfez há milhões de anos, tão real quanto o milagre de sua boca, dizendo seu nome, se oferecendo como um beijo.

E quando ela dançar nua, dentro de seu vestido, e os cabelos oscilarem como um feitiço ancestral, quando suas orelhas se enfeitarem de brincos grandes, e as chamas devorarem as roupas de suas vestes, quando tiverem lido todas as palavras de todos os livros, de todos os tempos e tiverem aprendido a dizer te amo em todas as línguas e dialetos, enfim, se pertençam, inevitáveis que são.

E, aí sim, o corpo em comunhão e febre, fará de cada um a redenção do outro, irrepetível, atemporal, ilimitado e inesquecível. Porque é preciso amar, ao menos uma vez, um homem ou uma mulher, como quem não sabe dizer adeus. Como quem nunca vai poder dizer adeus. Ainda que a vida, ou os erros, os separe.

É preciso amar como quem tece o fio da vida na existência do outro, no abraço de seu sono, com quem ao dormir se dilui e se infiltra nos poros da pele do parceiro e se tatua no seu corpo inteiro para a distância do momento seguinte, porque sabe que para amar sequer é preciso estar junto. É necessário, apenas, permanecer, porque nada mais irá bastar ou satisfazer.


Então, deixe-se surpreender, quando ele, ou ela, vier. E, embora erremos e amemos enganos, que nem valem a inocência dos apaixonados e o que damos, e nem sabem receber, devemos amar certos amores como quem faz uma leira, ceva e fertiliza a terra onde o outro pisa e a cuida diariamente, com flores e um jeito de olhar que só você terá, como só pode fazer um jardineiro fiel. A amar, e se deliciar de amar, o seu jardim do avesso.

Segunda-feira, 9 de Fevereiro de 2009

texto 51 - Ilusões

Não é o que tenho que me pertence.
Nem os seios que margeio
Ou o que tem endereço
e boca vândala de promessas.
Nem o que tenho guardado
-teu ouro do melhor-
ou o que me é dado
no leito, altar dos sacrifícios.

Não é o que tenho que me pertence,
pois meu verdadeiro é só o que me iludo ter.

Quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2009

Texto 50- A flor do meu avesso...

Mulher - Riolan Coutinho
Sei que virá. Pois é tua sina, o eterno retorno. Indultaremos-nos da condenação ao relento, ao pântano das ausências, com suas flores amorfas. Das ruínas do impossível surgirá linda, a alma tatuada de esperanças, o destino marcado para pertencer, as febres eriçando os pelos, a fome de retirante a espera de ser saciada. E surgirá de uma beleza indescritível, a língua com novos dialetos, a linha de meu horizonte na curva dos lábios, o riso de gerar chuvas de espanto e amores.


Eu me prenderei ao anzol de teu cio e não respeitarei as hierarquias de teu corpo e me deixarei em exilo no fluxo das marés de teu ventre. Descansarei no vão de teus seios - animal alado em vôo-, da luta de incriminar as rotas de teu corpo, navegadas sem cais e ordem, das indecências de nosso amor. Eu te sagrarei santa, e tu pecará, pelo meu prazer. Eu me farei devasso para resgatar a porção clandestina de tuas vontades e tu se vestirás de açucenas e lírios e terá cheiro de banho e lavanda.


Na vertigem abissal de tua dança de acasalamento e sedução, e na fartura precisa e exata de tua forma, inscreverei as escrituras de tua permanência, e com o alfabeto de teus encantos, e o sargaço do mar de liames que banha teus olhos, tecerei a cartilha por onde irei rezar. Tu deixarás pai e mãe e eu deixarei pai e mãe, porque a vida se despedaça na tua falta. Inaugurarei tua dinastia, e nos guiaremos pelos luares, para evitar o carpir das despedidas e dos desencantos comuns.


Urdirei tua vida como minha casa, construída peça por peça, e untarei tua pele de meu desejo. Na lavoura de nos amarmos, infindáveis, farei abrigos para te proteger. E cuidarei dos rumores de tuas dores, como minha vindima. Velarei teu sono com o abandono dos amados e quando me acordar, por vontade, saudade, medo da morte ou do fim, e nos jogarmos abraçados nos delitos de nossas bocas insensatas eu saberei enfim, em paz, que você é a flor mais bonita e derradeira do meu avesso.

Sábado, 31 de Janeiro de 2009

A dança da vida...

saudades, saudades...

Reduzi a saudade, mas o tempo e a criatividade empacaramm no texto 50. Mas eu volto...rss

Quinta-feira, 29 de Janeiro de 2009

Texto 49 - Inventário

Modigliani - Nu Deitado

Das minhas dores mais longas,
desbagoarei os gomos,
pra atender à fome dos cães.
Meu olhar sem escamas,
e a senha de teu corpo,
pode levar ou esquecer:
não me cabe guardar inocências.

As fraquezas, inclusive
meu choro de homem
e aquela noite, era outubro,
serão minhas, no inventário.
As demais miudezas: lençóis,
projetos inacabados, risos,
guardemos, nos inúteis da memória.


Do que sou, ao fim,
serei sempre, exílio.

Terça-feira, 27 de Janeiro de 2009

Texto 48 - Desamor

Ela se vestia de lua,
semeava gerânios nos meus presságios
e lançava seus desatinos aos longos
cabelos do meu desejo.

Mas sua carne de receios
alimentou os cães
e outros desencantos.

E, enfim, poeira de ossos
na minha memória,
ela dança nua.


Poema premiado com segundo lugar no concurso nacional da revista literária Iararana

Quinta-feira, 22 de Janeiro de 2009

Texto 47 - Encilhamento

Renoir - liseuse
Sempre estivestes perdida
de mim para mim mesmo.
Se um dia viestes,
com ares de quem fica,
foi apenas para marcar
o irremediável início
de teus passos de ida.
Nunca estivestes onde ficastes,
e, inteira,
fostes apenas na saída.

Nunca te possuí, pois,
partida, quando viestes,
era apenas a que já se tinha ido.


De amanhã até segunda estou indisponivel em Barra Grande- Taipu de Fora...Praia e vinho, vinho e praia....Bom fds...amo vocês...

Quarta-feira, 21 de Janeiro de 2009

texto 46 - Devaneio II

...e então, deixo que meu corpo nu, e urgente, se embaraçe no teu e inscrevo na tua pele o meu desejo. Faço de tua geografia, escarpas e mirantes, minha pátria, e teus gemidos o dialeto de meu ritmo. Deixo que a língua decifre, apure, sem pudor, tudo que há.

Deixo teus lábios dancem nos meus, cordillheira sendo escalada, lentamente, depondo as armas da permissão, as águas de sol e mel escorrendo e aquecendo a língua como bebida sagrada, geleira se derretendo para a promessa de inventar um mar inteiro, as margens entreabertas, as costas, o rêgo, o fardo de fêmea se ofertando. Percorro os anéis de Saturno ao avesso, como caça, vítima, algoz de gostos, enqaunto ouço teus pedidos devassos que os mãos invadam as concessões, as capitanias.

Quando me toma, festa reciproca, e me lambe sem pressa, como te disse, enche a boca, sentindo-se gloriosa do poder que ela tem, do domínio que impõe, na fome, na gula, na dança que fará da gala nos teus lábios, como camada de sal, do que toma de gole, me faz saber que a porteira do céu se abre por teus lábios...

Então nos beijamos feito desesperados, andarilhos das vontades e posses, o gosto um do outro na saliva, perpetuando-se, inimitável.


E me largo, retorno infindável, entre tuas coxas, mortal abandonado a tua sanha, veneno, e deixo que a boca te coma toda, te coma, sem salvações, me deliciando com o gozo que me sagrará teu homem, posseiro, fio de linho a te trazer viva, do labirinto, e te inaugurar, meu perfeito amor...


Segunda-feira, 19 de Janeiro de 2009

Texto 45 - Proposta...

Crisantemos - Tarsila do Amaral
Eu não sei quem tu és, mas te trarei gerânios e rosas únicas, diariamente, como acalanto de tuas delicadezas, e inventarei leiras de jardim, só como sesmaria de teu riso. E me perderei em tua vida deitando nas brancas naus de sal, de teus olhos.


Estenderei, filho do sertão, que sou, minha esteira de licuri para que descanse tuas dores, antes ao relento, sem julgamentos, ou medidas. Farei altares de tudo que é lindo em você, e ofertório do último amor que me resta. Saberei que danças secretamente dentro de teus vestidinhos, uma dança imperceptivel, a quem não sagrou a paixão nas tuas formas.


Beberemos vinho, bailaremos na chuva e faremos amor, ao amanhecer, nos tatuando e refazendo no corpo um do outro, para enfrentar a longa voragem do cotidiano. Comprarei o pão do dia, quente e familiar, e o repartiremos no jantar, como um novo milagre dos peixes.

Desaguaremos no mar e andaremos na areia da praia e das tentações, sem sandália, e inventaremos novas pegadas e cumplicidades. Eu serei tuas recusas e tu serás a minha. À noite, deixarei água na tua cabeceira, para que saiba que estou ao teu lado, nas tuas sedes e chocolate, pois há vontades que nem um homem pode atender nas mulheres.

E, ainda que saiba que muitos homens podem devorá-la, e eu a outra, não faremos da cobiça o carpir do exílio. Amaremos, não como quem se sente acuado, entre temores, mas como quem anda nos quintais, e adormeçe nos braços do outro como se fosse a varanda de seus sonhos..

Ainda sei de amar com flores e amavios, fiando a mulher e deusa, feito devoto, só não sei aonde te encontro...